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Como crianças se tornam pilotos!

7 Minutos de leitura

  • Publicado: 19/02/2021
  • Atualizado: 19/02/2021 às 13:44
  • Por: Isabel Reis

Como as crianças se tornam pilotos? Já falamos aqui sobre como a ciência, o autoconhecimento e a tecnologia têm contribuído para a criação e a busca dos Superpilotos. O que não mostramos ainda é sobre o que acontece quando um piloto ou um esportista é treinado mentalmente desde criancinha. Afinal, no automobilismo e em outros esportes as crianças começam a correr cada vez mais cedo, com cinco, seis anos, às vezes, até menos. A questão é: estariam elas prontas para tais desafios e responsabilidades? E os seus pais ou treinadores estariam aptos para formar esses talentos, transmitindo segurança e confiança?

Este é mais um tema para o superespecialista em ídolos, José Rubens D’Elia, consultor corporativo e esportivo. São muitos pilotos formados por ele, que também já publicou dois livros sobre o assunto: “Fábrica de Campeões” e “Ciclismo – treinamento, fisiologia e biomecânica”.

Particularmente, acho que os pilotos amadurecem mais cedo que os adolescentes comuns, especialmente aqueles que correm no exterior, longe da família e dos amigos. Lembro de ter conversado com Nico Rosberg, filho do grande Keke Rosberg, durante uma coletiva em São Paulo. Na época, ele tinha apenas 17 anos, mas parecia extremamente maduro para a sua idade. Em 2016, Nico foi campeão mundial com muita maturidade, derrotando Lewis Hamilton na mesma equipe Mercedes e com o mesmo carro que o rival.

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Longe de ser especialista, mas com um filho criado, imagino que enfrentar os desafios, a rivalidade, o medo, criam esse amadurecimento precoce. Por isso, o ensinamento dado por José Rubens D’Elia é uma ajuda para filhos e pais, trazendo o entendimento para quem quer seguir carreira em uma pista. Veja o que o criador do Coaching Familiar de Alta Performance fala sobre essa delicada questão do treinamento iniciado na infância.

José Rubens D’Elia, criador do Coaching Familiar de Alta Performance
Quando deve começar essa influência em uma criança, especialmente aquela que quer se dedicar aos esportes?

José Rubens D’Elia – Tem uma frase que eu gosto muito que diz: “O pai será o filho. O filho será o pai.” Ela confirma a influência decisiva dos pais na formação, educação e evolução dos filhos. Porque a criança recebe estímulos desde a gestação, quando os sentimentos e as emoções da mãe impactam diretamente no seu desenvolvimento. Também o comportamento das demais pessoas envolvidas no processo da gravidez, exercem uma significativa influência. Os estudos Neurocientíficos evidenciam que a interação dos pais com seus filhos estimula o desenvolvimento cerebral, o crescimento emocional e a aprendizagem. Os relacionamentos sociais são muito importantes para a felicidade.

Quando foi possível entender como funciona a Neurociência?

José Rubens D’Elia – Até recentemente não havia nenhuma orientação abalizada e científica sobre esse processo de interação, formação, educação dos filhos e preparação para a vida, para o esporte etc. Cada família fazia o seu melhor, de acordo com a sua história de vida, crenças e valores. Hoje, a Neurociência possibilita otimizar essa relação de maneira saudável, com resultados positivos nos vínculos afetivos durante a infância, pré-adolescência e adolescência. Ou seja, desde o processo de desenvolvimento cognitivo e emocional, a fase escolar, o contato inicial com o esporte e as interações sociais.

João Paulo Bonadiman e seu pai: iniciou no Kart com seis anos, treinado por D’Elia
Até que ponto uma criança pode ser estimulada para a vida, desde muito cedo?

José Rubens D’Elia – A criança de zero a três anos pode (e deve) ser estimulada nos seus cinco sentidos (tato, olfato, visão, audição e paladar). Porém, costumam existir lacunas nesse processo, porque os pais e as demais pessoas que participam da educação (pais, avós, babás, profissionais de creches e outros) não têm conhecimento a respeito. Tudo é muito novo. Felizmente, a Neurociência nos possibilita aprender e entender o cérebro da criança, ampliando as ferramentas para que as relações familiares, aliadas ao processo natural de desenvolvimento, sejam saudáveis e positivas.

Como você iniciou esse processo de treinamento com os jovens pilotos?

José Rubens D’Elia – A minha experiência de mais de 30 anos de convivência no esporte me propiciou identificar essa carência na relação entre pais e filhos. De forma intuitiva, eu já envolvia os pais nos coachings que realizava com os atletas, cuja faixa etária ia de cinco a 18 anos. Não havia manual nem receita para esse acompanhamento, ou para a participação dos pais nos projetos dos filhos. Então, pioneiramente, fui integrando a experiência prática com pesquisa e estudos, experimentando uma forma nova de envolver o protagonista (atleta) e coadjuvantes (pais). Os resultados positivos me incentivaram a aprofundar os estudos e a criar esse produto, Coaching Familiar de Alta Performance, com a importante ajuda da Neurociência e de outras áreas do conhecimento.

Resultados de João Paulo em 2020, com oito anos: campeão do Troféu Ayrton Senna e, na foto acima, vice-campeão brasileiro de Kart
Como funciona esse programa de coaching familiar?

José Rubens D’Elia – A formação dos filhos depende das informações que eles recebem diariamente no ambiente em que vivem. Eles crescem e se desenvolvem por espelhamento, aprendendo o que observam no comportamento dos pais e familiares. O objetivo principal do nosso trabalho com os pilotos e outros esportistas é alinhar as seguintes atitudes com a sua família:

– Que os pais aprendam a lidar com o filho, principalmente nos momentos de frustração (nas relações sociais e familiares, na escola, no esporte e em outras),

– Exercitar o “ouvir” as emoções do filho, antes e após alguma atividade importante (novamente escolar, esportiva ou social),

– Fazer as orientações sem julgamento e no momento propício,

– Perceber o quanto a atitude do filho é reflexo do que ele percebe no comportamento dos pais,

– Aprender a dar o apoio adequado ao filho, para desenvolver o talento que ele tem e prepará-lo para resultados positivos, mas sem a postura de cobrar resultados e ressaltar os erros,

– Ter expectativas adequadas em relação ao desempenho, nem superestimando ou subestimando. Elogiar acertos, motivar a aprender com os erros, trabalhar a resistência à frustração. O esporte é uma excelente ferramenta para ensinar a lidar com a frustração, bem como a desenvolver o hábito da disciplina,

– Praticar em conjunto exercícios Psicofísico que ajudam no desenvolvimento do equilíbrio, criatividade, segurança, além de fortalecer a relação familiar e favorecer o aprendizado, que é gradativo.

Como é o seu trabalho diretamente com o automobilismo?

José Rubens D’Elia – Aplico esse mesmo método com os pilotos. Tenho a oportunidade de trabalhar com várias faixas etárias, desde o kart até as Fórmulas 1, 2 e 3. Quando o piloto é da categoria mirim, observo que pode haver uma influência dos pais, que pode ser inconsciente, na escolha do filho pelo automobilismo. Gradativamente, com o amadurecimento natural da idade, o piloto consegue identificar se o automobilismo é realmente uma escolha sua ou da sua família.

É fundamental a participação dos pais?

José Rubens D’Elia – Sempre ressalto a necessidade da participação dos pais. Se o piloto for muito novo e não tiver ainda desenvolvimento cognitivo e emocional, fazemos a sessão de coaching com 80% do processo junto com os pais e 20% somente com o piloto. No automobilismo, há uma demanda cerebral intensa, desde a categoria mirim. Se os pais não forem orientados, a tendência é que eles “cobrem” resultados da criança como se ela já fosse adulta. Se não houver alinhamento nesse comportamento, cria-se uma tendência de ansiedade nos filhos, com forte auto cobrança e perfeccionismo, o que não é saudável para o desempenho no esporte e na vida.

Qual conselho você dá para os pais, sejam eles de pilotos ou de crianças em geral?

José Rubens D’Elia – Vou usar aqui o conceito de Augusto Cury, psiquiatra e professor: “Os filhos precisam ouvir a história dos pais, as suas experiências, as suas vitórias e derrotas. É dessa forma que desenvolvem a autoestima e a capacidade de trabalhar perdas e frustrações. A capacidade de dialogar e de ouvir.”

Dica do especialista:

José Rubens D’Elia indica o livro O Cérebro da Criança, dos autores Daniel J. Siegel e Tina P.Bryson, best-seller do New York Times. Segundo o especialista, esse livro é inovador e agrega informações preciosas de como pais e filhos podem se relacionar em todas as faixas etárias, aprendendo a lidar com o cérebro direito (emocional) e o cérebro esquerdo (racional) de ambos, crianças e pais.

Veja um exemplo das lições desse livro:

Tipo de Integração: integrando os cérebros esquerdo e direito.

Estratégia do cérebro por inteiro: conectar e redirecionar. Quando o seu filho estiver chateado, conecte-se primeiro emocionalmente (cérebro direito). Então, depois, quando ele estiver mais controlado e receptivo, traga as lições e a disciplina (cérebro esquerdo).

Aplicações da estratégia: escute o seu filho e depois repita como ele está se sentindo. Ao mesmo tempo, use a comunicação não verbal para reconfortá-lo. Abraços e toques físicos, com expressões faciais empáticas, continuam sendo ferramentas poderosas para acalmar grandes emoções. Depois, redirecione-o para a solução dos problemas e, dependendo da circunstância, mantenha a disciplina e estabeleça limites.

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