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Como as corridas sequenciais afetam a vida de pilotos e equipes

7 Minutos de leitura

  • Publicado: 19/09/2020
  • Atualizado: 20/09/2020 às 10:34
  • Por: Isabel Reis

As corridas sequenciais, realizadas de forma condensada no segundo semestre deste ano, afetam a vida de pilotos e equipes? Ficamos curiosos com esse tema, afinal, algumas categorias têm tido até duas etapas por fim de semana. A Fórmula 1, por exemplo, teve três etapas consecutivas, com intervalos de uma semana entre cada uma delas, o que também aconteceu com outras modalidades. Juntando isso à falta de público, a não existência de eventos com os patrocinadores, à distância da família, o cenário atual pode estar causando maior estresse em todos os envolvidos com o automobilismo?

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Para ir a fundo no assunto, entrevistamos o Dr. Dino Altmann, presidente da comissão médica da CBA e vice-presidente da comissão médica da FIA. Ele iniciou no automobilismo como médico em 1990. Em 1996 tornou-se o responsável médico da Stock Car. Desde 2001 foi o diretor médico do GP Brasil F1 e  desde 2004 é o responsável pela Porsche GT3 Cup. Ele explica que esse estresse até afeta mais as equipes, do que os pilotos.

Dino Altmann, presidente da comissão médica da CBA e vice-presidente da comissão da FIA

 

Para dar o ponto de vista do piloto escutamos o brasileiro Gianluca Petecof, um dos destaques do País no exterior em 2020. Este ano, ele estreou na Fórmula Regional Europeia e tem uma visão bastante prática e racional sobre as corridas condensadas. Iniciamos com o experiente Dino Altmann.

Gianluca Petecof: fazendo carreira na Europa e um dos destaques brasileiros no exterior
Corridas sequenciais afetam a saúde física e emocional do piloto?

Dr. Dino Altmann – Acho que afetam mais a saúde da equipe do que propriamente a do piloto. Imagine na Fórmula 1, onde as equipes ficam até três semanas fora de casa, confinadas dentro do autódromo, dormindo em trailers. O piloto termina a corrida no domingo e já fica livre até a próxima quinta-feira. As equipes precisam arrumar os carros, fazer o transporte para outro circuito. Por isso, elas acabam sendo mais sacrificadas. Dependendo da situação, o piloto pode sair de uma corrida e ir para casa, depois seguir direto para a próxima prova. Já a equipe não tem essa liberdade, todos viajam juntos.

Essa dinâmica pode afetar o rendimento da equipe?

Dr. Dino Altmann – Sem dúvida afeta. E nem precisamos falar só desta fase das corridas concentradas. O GP do Brasil, por exemplo, sempre ocorreu no final do ano. O desgaste dos membros das equipes nessa época da temporada era muito grande. Eles passam muito tempo fora de casa, adoecem, não tem uma assistência médica tão adequada, comem mal, dormem mal e chegam aqui muito desgastados. Por isso que no GP do Brasil sempre foi montado um centro médico muito bem estruturado e que atendia a todos eles: mecânicos, chefes de equipe, trabalhadores da FIA, todos muito cansados.

As necessidades médicas são mais físicas ou emocionais?

Dr. Dino Altmann – Eu acho que são mais físicas, apesar que o emocional também afeta. Muitos têm famílias, eles ficam muito tempo longe e isso tudo gera um desgaste ainda maior. Por outro lado, as temporadas são mais curtas. Talvez uma coisa compense a outra e as equipes cheguem ao final com menos desgaste. O número de provas é menor. A Fórmula 1 reduziu de 21 para 17. A Stock Car diminuiu de 12 para 8 etapas. A Porsche mantém as mesmas etapas, mas num espaço de tempo mais curto.

Os compromissos profissionais exigidos para o piloto causam muito desgaste?

Dr. Dino Altmann –  As atividades extras, como os eventos dos patrocinadores, tomavam muito tempo dos pilotos. Agora eles conseguem se concentrar na competição e ficar mais no autódromo. Lá o piloto faz os exercícios, tem mais horas para descanso, conversa com os mecânicos, com os engenheiros, se concentra para a próxima corrida, discute detalhes técnicos. Então, acho que os pilotos estão muito mais centrados e focados na competição do que anteriormente.

Sem corridas no primeiro semestre, como ficou o condicionamento físico?

Dr. Dino Altmann – A maioria está muito mais bem preparada fisicamente do que em campeonatos anteriores. Os números comprovam isso. Porque os pilotos tiveram esses quatro, cinco meses, para se prepararem. Isso acabou melhorando a performance deles durante as corridas. Veja que os pilotos têm enfrentado, tanto aqui como no exterior, etapas com temperaturas extremamente quentes. E estão suportando muito melhor até o desgaste provocado pelo calor.

“As provas são até mais desgastantes para as equipes”
As inúmeras viagens, pegar avião, é um risco a mais enfrentado?

Dr. Dino Altmann – Mais ou menos. A F1 se concentrou na Europa, onde dá para fazer tudo por estrada. As distâncias mais longas os pilotos têm feito em aviões privados. Eles se cotizam e vão até cinco no mesmo avião. E como eles precisam ser testados a cada cinco dias, a probabilidade de o grupo contrair o Covid-19 é muito menor. E não só os pilotos: todos que entram no autódromo são testados a cada cinco dias. Isso cria uma bolha, na qual a chance de contrair a doença é mínima. Isso acontece aqui também: antes de cada etapa todos são testados com PCR, que é padrão ouro para diagnóstico do Covid. Esses exames são feitos sempre no início da semana, porque assim as equipes já saem com todos testados, sem o risco de ter alguém contaminado e que possa contaminar os outros. As equipes todas têm se locomovido de automóvel, o que é mais seguro.

Já está se falando de abrir os autódromos para o público. É a hora certa?

Dr. Dino Altmann – É difícil falar sobre isso. A conscientização do brasileiro ainda não nos permite dizer que é possível flexibilizar mais. Se formos olhar para o que vem acontecendo nos feriados, fins de semana, com praias lotadas, festas particulares, bares lotados. Está todo mundo negando que existe uma pandemia. E isso é péssimo.

Para o próximo ano o senhor acha que os campeonatos voltam ao normal?

Dr. Dino Altmann – Acho que vai existir uma normalidade em relação ao calendário. A tendência é que eles voltem a ser como eram antes e que existam praças aptas a receber as competições. Mas isso depende muito mais das decisões dos governos e dos organizadores. Não adianta as entidades acharem que está na hora de ter público, se o governo não permitir isso.

Veja o depoimento do piloto Gianluca Petecof: “Pilotos querem é correr!”

“Nesse último período, tudo o que aconteceu em um fim de semana de corrida foi normal. Não vejo como nenhum estresse extra. Consegui me preparar muito bem, 100% preparado para qualquer tipo de situação desde o começo da temporada.

O meu campeonato foi um dos menos afetados, com oito fins de semana de corrida, e não tive nenhum problema com as corridas em sequencia. Começamos o campeonato em agosto (ele termina em dezembro), sempre com pausas de uma, duas, até três semanas entre as corridas. Então tem sido bem tranquilo. Para outras categorias, principalmente no fim de semana da F1, considerando também F2 e F3, têm sido bem difícil. Mas, no final, os pilotos querem é correr. Então se pudermos fazer isso todo fim de semana, só vejo isso como positivo.

Gian estreou na Fórmula Regional Europeia, este ano

O meu campeonato é uma categoria de base com carros mais físicos, muito pesados. E principalmente as provas de agosto e setembro têm sido feitas sob muito calor. A preparação física foi essencial. Eu consegui me preparar muito bem nas primeiras rodadas. Não tive nenhum problema físico e nem mental.

Acho que o ponto de vista emocional é diferente para cada piloto. Eu já estava acostumado a passar um tempo sozinho e me virando por aqui. Claro que sempre com o apoio total da minha família. Mas era algo que eu já tinha me acostumado. Tem sido um ano muito positivo, com cinco pole positions consecutivas, várias melhores voltas. Isso demonstra que o lado emocional também tem sido muito bem controlado e eu quero continuar assim até o final do ano.

A minha categoria já está acostumada a ter um público mais tranquilo, a ter uma atmosfera menos povoada no padock, então foi só uma questão de se manter focado. O que importa é a pista e esquecer todos esses fatores externos. Quero terminar o meu campeonato forte, buscar o título, agora liderando com uma certa vantagem. E isso só me dá mais motivação para continuar melhorando, continuar aprendendo. E buscando o título no fim do ano!”

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