Card image
Notícias
Em busca dos Superpilotos

13 Minutos de leitura

  • Publicado: 25/09/2020
  • Atualizado: 25/09/2020 às 13:03
  • Por: Isabel Reis

Como a ciência, o auto conhecimento, a tecnologia, têm contribuído para a criação e busca dos Superpilotos. Estamos falando daqueles com foco, determinação, até frieza, que pontuam, que ganham corridas e campeonatos. O Superpiloto já nasce assim ou vai adquirindo essas características ao longo do tempo, com muita dedicação e treinamento?

Para responder a essas questões, entrevistei José Rubens D’Elia, experiente coach e mentor de alta performance. Ele está há mais de 30 anos atendendo pilotos de todas as categorias do automobilismo e também atletas olímpicos.

Você conhece o canal da RACING no YouTube? Clique e se inscreva!
Siga a RACING também no Instagram!
José Rubens D’Elia: há mais de 30 anos treinando pilotos

D’Elia, José ou Zé, como é chamado por seus pilotos, criou o Método Psicofísico, utilizado na Pilotech, empresa da qual é sócio fundador. Ele se utiliza da preparação física e também da mental, ambas fundamentais para obter os melhores resultados.

Para saber como o método funciona na prática, também entrevistei dois pilotos que se destacam no exterior e que foram alunos de D’Elia. Um é Sérgio Sette Câmara, piloto reserva da Fórmula 1 na equipe AlphaTauri e da Red Bull. Ele respondeu às perguntas diretamente da Rússia, onde está acontecendo o GP deste fim de semana.

Sérgio Sette Câmara, piloto reserva da Fórmula 1 na equipe AlphaTauri e Red Bull

O outro piloto é Gabriel Bortoleto, que corre na Fórmula 4 Italiana e treinou com D’Elia até dois anos atrás. Ele foi destaque do kartismo e subiu ao pódio no Mundial.

Gabriel Bortoleto, que corre na Fórmula 4 Italiana

Ou seja, ouvimos três profissionais, com idades diferentes, mas todos em busca de um único destino: vencer! Vamos iniciar com José Rubens D’Elia:

Você foi autor dos livros “Fábrica de Campeões” e “Ciclismo – treinamento, fisiologia e biomecânica”. Como o seu método se diferencia dos demais?

José Rubens D’Elia – Eu utilizo uma série de recursos, como a leitura em voz alta enquanto o piloto treina na esteira, por exemplo. Ou seja, enquanto treina o físico, também está fazendo algo para melhorar o potencial mental. Esse tipo de exercício cria um estímulo que aumenta as conexões do cérebro. Também utilizo outros recursos, alguns muito simples. Passo uma tabuada e eles ficam extremamente atentos aos resultados dela, enquanto fazem outro treino. A ressonância magnética funcional (que foi desenvolvida há bastante tempo, mas é uma coisa nova na neurociência) mostra o movimento das conexões cerebrais enquanto o piloto faz um cálculo simples ou outro mais complexo. O mais simples é o que dá o melhor resultado. Também recorro aos sentidos: peço que fechem os olhos e potencializem os demais sentidos. Utilizo, ainda, a yoga e a meditação: tudo aquilo que deixa em permanência, centrado, traz ótimos resultados.

Como o automobilismo, com seus riscos e emoções fortes, afeta o piloto?

José Rubens D’Elia – O automobilismo utiliza uma estrutura com adaptações poderosas. Esses profissionais trabalham com criação, com ideias, desde a hora da construção do carro, até o momento de treinar nele. O piloto, em geral, começa brincando de kart e se transforma em um gigante a partir das fórmulas e dos monopostos. Ele tem um direcionamento para resultados. Quando põe o capacete, ao sentar-se no banco, só interessa ele, o carro, a pista e a equipe.

José Rubens D’Elia treinando o piloto Igor Fraga para uma competição virtual da McLaren. Ele venceu!
Ter a família por perto em uma prova ajuda ou atrapalha?

José Rubens D’Elia – Cada vez mais pilotos querem menos interferência familiar. É muito profissionalismo, com todos fazendo o seu melhor. Às vezes um olhar de uma mãe, que é cuidadora, o olhar do pai que já expressa o “vai, acelera” acabam interferindo no emocional do piloto. Nas provas de kart brasileiras é hábito ter um monte de gente no box. Já o kart europeu é diferente, bem mais restrito. Pai e a mãe ficam na arquibancada.

Qual é o segredo para que o sucesso aconteça?

José Rubens D’Elia – O automobilismo é muito demandado em cima de resultado puro. Só que resultados surgem de detalhes. Se o piloto não tiver o potencial de observar, se não tiver controle emocional, vai complicar. O piloto precisa ser bom em imprevistos. Por exemplo, o carro que ele usa no treino é um e, para classificar e correr, é outro! Ele precisa sempre estar preparado para se adaptar. O piloto tem que ser abrangente para poder “tocar” e chegar no final. Porque todo mundo quer vencer. E vencer não representa apenas ganhar a corrida, representa evoluir, desenvolver cada vez mais, se integrar, fazer sinergia com a equipe.

Então o melhor resultado vem com o desenvolvimento permanente?

José Rubens D’Elia – A questão do desenvolvimento permanente eu criei com o Robert Scheidt, velejador e atleta olímpico, há muito tempo. A gente aprende muito nos acertos. Mas mesmo quando se acerta, ainda há mais coisas para fazer. Não se pode falar “deu certo”, mas, sim, “o que eu posso melhorar”. O piloto está iniciando sempre. Cada corrida é uma iniciação. O exercício que ele precisa fazer é estar na relação com a equipe, entendendo o carro, observando os adversários. Quando acontece um erro, tudo bem. É preciso olhar para o seu erro e aprender com ele. A cabeça de um piloto precisa ser como um jogo de xadrez. Ele precisa mover as suas peças para o próximo momento. Além do mais, dentro do ambiente, o piloto precisa reconhecer quais são os pontos fortes e os fracos em relação a sua parte emocional.

Como é esse tipo de treinamento?

José Rubens D’Elia – Quando o piloto me procura para esse trabalho, a gente começa a conviver. Aí descobrimos algumas coisas muito poderosas, que precisam ser desenvolvidas. O trabalho consiste em fazer exercícios e desenvolver atividades psicológicas e físicas. Abrir a mente dele. Por exemplo, muitas vezes pergunto: “você lê?”. Muitos respondem que têm preguiça. Muitos saíram da escola para poder correr. Com isso, estão perdendo a potência mental, porque o intelecto, o cognitivo, é fundamental. O automobilismo é um esporte que demanda muitos pensamentos, tomadas de decisões, controle de impulsividade, atenção, visão periférica. Nós estimulamos, treinamos tudo isso, só que aí o piloto precisa fazer a parte dele.

Treinamento com vários recursos para melhorar áreas físicas e mentais
O treino é ao vivo ou pode ser pela internet?

José Rubens D’Elia – Nesta fase de pandemia, converso por Skype ou por celular, junto com a minha equipe. Pergunto como foi a corrida e muitas vezes peço ao meu piloto que escreva sobre a prova. Que faça a sua análise por escrito, para que possa ir se refinando. Existe um “gap” de uma ou duas semanas entre uma prova e outra. O piloto precisa ser estimulado. No primeiro semestre deste ano, quando não havia corridas, nós aqui da Pilotech não deixávamos ele parar, ter uma vida sem dinamismo. Eles usavam o simulador (temos o melhor equipamento da América Latina). E a minha orientação era de treinamento online.

A ansiedade afeta muito o resultado de uma corrida?

José Rubens D’Elia – A expectativa é que faz o piloto ir mal. É preciso escoar as tensões, equilibrar, renovar os pensamentos, ter grandes ideias, e isso acontece quando se está em movimento. Estar em movimento tira de um estado que reduz o potencial cerebral. Então, o melhor é treinar, treinar e treinar. Todos os pilotos treinam muito, mas existem vários níveis: ele pode ser atleta, se quiser. Mas pode ser menos que um atleta, também, desde que tenha um conjunto bom. Porque não adianta só ser um superatleta. O Hamilton é um gênio, a cabeça dele é maravilhosa. Se olhar os grandes vencedores, esses pilotos todos são muito bons de cabeça. São muito bons no jogo de xadrez, sem saber jogar xadrez. Eu sempre coloquei os meus pilotos para jogar xadrez. No começo, nem sabia que era tão bom assim para eles. Acabei fazendo um laboratório natural por intuição. Hoje é comprovado que se você fizer mais, o seu cérebro te dá mais e você consegue entrar em contato com você mesmo. Essas ações de registrar, de escrever, de ler livros ajudam a crescer mentalmente.

Treinamento com Sérgio Sette Câmara
Os treinos nas pistas são fundamentais?

José Rubens D’Elia – Correr faz o piloto se desenvolver. Quanto mais, melhor. Os pilotos fazem a sua carreira e quando conseguem entrar em determinada categoria, o sonho é tão grande, o investimento é tão grande, que eles fazem o máximo para se manter lá — e ainda precisam manter uma reserva física e um ganho mental. Às vezes o piloto corre uma temporada e percebe que está faltando muita coisa. No lugar de se criticar, ele precisa aproveitar essa experiência, como se fosse uma faculdade de desenvolvimento. Deve pensar que são 15 corridas para aprender e utilizar esse conhecimento para melhores resultados na próxima temporada.

Como tratar a frustração? De não ter ido bem em uma prova, por exemplo?

José Rubens D’Elia – Tudo o que o piloto quer é correr. Nessa profissão, ele precisa ser apaixonado por isso, não pode pensar em outra coisa. No nosso processo, se ele não vai bem em uma prova, costumamos fazer treinar logo em seguida. Ingo Hoffmann, Chico Serra, faziam isso. Se iam mal, mais um motivo para começar a treinar de imediato, às vezes no próprio domingo à tarde. Porque eles precisam eliminar a energia daquela corrida. Depois de um treino físico pesado é que cai a ficha, é que o piloto percebe que pisou na bola, que o outro estava melhor, que ele precisa falar com o engenheiro. Um monte de coisas vêm à cabeça durante o movimento, trazendo maior clareza. A atividade física tem que ser permanente também como um antídoto para eliminar o “veneno”.

O automobilismo atual exige cada vez mais profissionalismo?

José Rubens D’Elia – Os pilotos são muito profissionais. Precisam dar retorno e por isso fazem o que precisa ser feito, seja com público presente, sem público, com família ou sem família, com pandemia ou sem pandemia. Isso é chamado de fluxo intencional. Ele precisa estar atento ao momento, o foco tem que estar naquilo que ele tem que fazer. O piloto não é um artista que vai dar um show, que precisa estar trocando com o público.

A Pilotech tem muitos alunos pilotos? Existe prazo para iniciar e terminar?

José Rubens D’Elia – Temos uma média de 35 a 40 pilotos, que vão desde crianças com 8 anos de idade até os maduros acima 60 anos. Eu atendo diretamente uma média de 12 pilotos. Faço esse trabalho já há muito tempo, criando os exercícios. Primeiro se faz um diagnóstico. Depois se analisa qual é o nível do piloto para ver o que ele precisa. O meu trabalho é totalmente a alma do desenvolvimento do programa dele. Esse é um treinamento que pode durar muitos anos, até atingir todo o seu objetivo.

Veja agora as entrevistas com Sérgio Sette Câmara e Gabriel Bortoleto, pilotos que receberam o treinamento para Superpilotos, ambos em momentos diferentes de vida, treinados por José Rubens D’Elia. As respostas estão por ordem alfabética:

Gabriel Bortoleto em seu carro: concentração total
Qual resultado você sente na prática com o Método Psicofísico?

Gabriel Bortoleto – Ele me ajudou muito na parte da concentração, além de eu ficar mais bem preparado fisicamente também. Mas senti principalmente uma maior concentração, após esse trabalho.

Sérgio Sette Câmara – Com certeza eu sinto os resultados na prática e dou muito valor ao trabalho da psicologia. Comecei com dez anos, mas os resultados não apareceram na hora. Demorei uns anos para começar a colher os frutos. Ele ajuda a gente a se entender melhor, a encontrar ferramentas para solucionar os nossos problemas, e avançar mais rápido em qualquer coisa. Por exemplo, entender uma dificuldade daquela temporada, com aquela equipe. A gente avança e soluciona os problemas mais rapidamente. E isso traz melhores resultados.

Sérgio Sette Câmara iniciou a trabalhar o psicológico para as corridas aos dez anos de idade. (Foto: Red Bull Content Pool)
Você concorda com a afirmação de que os pilotos são pessoas com qualidades diferenciadas, que já nascem com a adrenalina no sangue?

Gabriel Bortoleto – Acho que os pilotos desenvolvem isso. Quando eles vão para a pista, com toda aquela emoção, com todo aquele sentimento, acabam desenvolvendo essa adrenalina, essa vontade de correr. Que se torna uma coisa absurda, diferenciada.

Sérgio Sette Câmara – Para uma criança decidir que quer ser um piloto, provavelmente ela tem essa adrenalina na veia. Essa é a tendência. Não é uma coisa só para o automobilismo. Todos os esportes radicais exigem que a pessoa tenha a adrenalina consigo.

No momento de iniciar uma prova, o que você pensa? Ou não pensa nada e apenas se concentra?

Gabriel Bortoleto – Eu não penso. Ouço uma música antes da corrida, pulo corda, faço o meu warm-up. Eu sento no carro e quando dá a bandeira verde esqueço de tudo e só me concentro na corrida.

Sérgio Sette Câmara – Faço uma análise antes e compartilho essas ideias com as pessoas próximas, com o engenheiro, por exemplo. Mas alguns minutos antes de eu entrar no carro, me fecho, tento me acalmar e encontrar o silêncio. Ter a mente vazia e pronta para receber qualquer cenário possível, saber adaptar e raciocinar da maneira mais rápida possível.

Você concorda com a afirmação de que o piloto é uma pessoa fria? Que só importa vencer?

Gabriel Bortoleto – Acredito que ser frio é uma das coisas mais importantes na pilotagem. Isso define a maioria da sua corrida. Com certeza, vencer é a única coisa que importa: somar pontos em todas as provas para ganhar o campeonato no final do ano. Mas com ética, naturalmente.

Sérgio Sette Câmara – Acredito que a maioria dos pilotos, ao menos aqueles com sucesso, tem a vitória em primeiro plano. Mas falar que são frios, acredito que não. Pilotos são muito diferentes uns dos outros. Um piloto pode atingir os seus objetivos sendo frio e calculista e o outro pode ser emotivo, sangue quente, mas também ter ótimo resultado. Vai depender de quem ele é, de quem está cercado, das pessoas, da equipe. O que existe em comum é que todos os pilotos querem ganhar. Querem vencer!

Até que ponto ter a família por perto, na hora de uma prova, ajuda ou atrapalha? A sua mãe é do tipo: “corre devagar meu filho?”.

Gabriel Bortoleto – A família por perto só ajuda, te dá forças para continuar, acelerar e te dar foco nos seus objetivos. As mães sempre falam para a gente tomar cuidado. Mas na hora de pilotar você não pensa nisso: só vai e acelera.

Sérgio Sette Câmara – Depende muito do estilo do piloto. Em certas corridas eu não quero ninguém por perto, porque não estou com cabeça para isso. Em outras, quando sei que as pessoas estão vindo e sinto boas energias, aí eu fico bem com elas ao redor. Mas já tive companheiros de equipe que precisavam ter a família inteira junto. Se não fosse assim, era nítido que não “performavam” bem naquela corrida. No meu caso, eu tive sorte. A minha mãe sempre me incentivou a competir. Desde cedo me levava para fazer skate e outros esportes radicais. Ia nas minhas corridas de kart e já me viu capotar, entrar em ambulância. Mesmo assim ela sempre me incentivou.

Você acha que o preparo mental é tão importante quanto o físico ou é até mais fundamental?

Gabriel Bortoleto – Com certeza, mais fundamental ainda. O físico você desenvolve. Se não estiver bem preparado fisicamente, acaba se desgastando durante a corrida e não tendo a performance desejada. Mas o mental não é apenas durante a corrida: ele funciona antes e depois também. Porque você precisa se controlar quando não está em uma situação boa. Precisa saber lidar com a situação, sem ter um estresse excessivo. Acredito que o mental é até mais importante.

Sérgio Sette Câmara – Eu nunca abro mão do treinamento físico. No automobilismo, acabamos não praticando muito no nosso próprio esporte, que é muito caro e tem restrições. Se não fizermos um treinamento à parte, na academia, ficamos muito fora de forma. No automobilismo, a gente passa mais tempo na academia do que no carro correndo. Já o trabalho mental é um pouco diferente. Tive anos em que eu sentia que o treino mental estava sendo muito mais importante para mim do que o físico. Em outras temporadas ocorria o oposto, varia muito.

Você acredita na diferenciação entre Pilotos e Superpilotos? Ou seja, alguns têm mais capacidade, foco, talento para chegar lá e alcançar os seus objetivos?

Gabriel Bortoleto – Não acho que exista uma diferença entre Pilotos e Superpilotos, que você já nasce com isso. Acredito que a gente desenvolva isso. Certos pilotos não corriam muito bem na chuva, por exemplo, aí treinaram e acabaram ficando muito bons. A sua vontade de fazer “aquilo” é o resultado do que você terá dentro da pista. Você só consegue tirar 100% de proveito do que pode fazer, se tem dedicação e está totalmente focado no seu objetivo.

Sérgio Sette Câmara – Com certeza absoluta, uma pessoa já nasce com o conjunto de habilidades. Por exemplo, no automobilismo, se a pessoa que já nasce com uma noção espacial boa, uma noção de velocidade, está bem mais próxima de vencer. Importante saber se está rodando a 200 ou a 195 km/h. Ter a noção de quanto tempo passa enquanto faz uma curva. Saber identificar se está ganhando ou perdendo tempo. Mas também têm outros fatores como o controle emocional, saber trabalhar em equipe, habilidades presentes em todos os esportes. Então, pessoas que já nascem essas habilidades desenvolvidas terão maior facilidade para obter bons resultados.

LEIA MAIS:
Como as corridas presenciais afetam a vida de pilotos e de equipes
Presidente da CBA fala sobre a polêmica do GP do Brasil
Como fica o combustível de competição com a nova especificação para a gasolina
Jimenez: o primeiro campeão de carros elétricos de turismo do mundo
Campeonatos retornando e a Racing crescendo