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Entrevista exclusiva com Helio Castroneves

10 Minutos de leitura

  • Publicado: 14/03/2022
  • Atualizado: 14/03/2022 às 11:24
  • Por: Isabel Reis

Helio Castroneves ou Helinho, como é carinhosamente conhecido, concedeu esta entrevista exclusiva para a Racing. Aos 46 anos, ele está no auge da sua carreira e além de uma lista invejável de vitórias, ele também coleciona os troféus do Capacete de Ouro, tendo sido eleito inúmeras vezes pelos jornalistas brasileiros que participam dessa votação.

Helinho também coleciona os anéis das 500 Milhas de Indianápolis, a mais tradicional prova do planeta. Ele já venceu quatro vezes, empatando o recorde com  outros quatro pilotos em pouco mais de um século. Este ano, Helio parte acelerado para conquistar o quinto anel para a sua coleção.

Arte: Thomas Bento

Cheio de surpresas, o talento deste piloto vai além das pistas. Ele sempre surpreende com as suas atitudes espontâneas, com a sua alegria e as suas comemorações explosivas. Ninguém se esquece do “Spider Helio” que subiu no alambrado para comemorar a vitória nas 500 Milhas de Indianápolis. É impossível apagar da memória a imagem dele beijando o chão do autódromo. Ou quem esquece da sua vitória em Dancing with de Stars, um dos programas de maior sucesso dos EUA de todos os tempos. Helinho dançou e venceu também no palco, em frente a mais de 25 milhões de espectadores.

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Este ano, Magic Helio continua super animado. Participará de toda a temporada da Fórmula Indy, além da Indy 500, e de outros desafios que possam aparecer. Ele conta nesta entrevista como é estar no auge da carreira aos 46 anos e fala sobre aquilo que o motiva a vencer.

Helio não coleciona só anéis: também levou para casa inúmeros troféus do Capacete de Ouro!
Você é o maior piloto brasileiro em atividade. Levou o troféu Capacete de Ouro na categoria TOP justamente como reconhecimento pelo seu trabalho. Como se mantém tão competitivo?

Helio Castroneves – Queria agradecer a revista Racing e a todos os jornalistas que indicam o vencedor do Capacete de Ouro. Sem dúvida ter vencido as 500 Milhas de Indianápolis ajudou a me colocar em um lugar mais alto e a receber mais um troféu do Capacete de Ouro. Porque acreditem ou não, por mais que estejam aí longe, no Brasil, a energia positiva acaba nos ajudando a ter uns cavalos a mais no motor. Sobre a pergunta, o que me deixa motivado para seguir competitivo, é justamente guiar em outros tipos de categoria. Quando eu sai da Fórmula Indy, em 2017, fui para os carros protótipos da Penske, em 2018, 2019 e 2020, excelente para eu aprender em outras situações. Surgiu essa oportunidade de guiar outros carros, até parecidos com os da Nascar, da categoria SRX, então, vamos lá! O importante é estar dirigindo. Hoje no automobilismo a coisa virou tão virtual, que especialmente os jovens acabam guiando com os olhos. O que é bom também porque ajuda a aprender em certas situações. Mas ainda é muito importante sentir o carro. Talvez por eu ser da velha guarda, por ter testado muito, acredito que isso ajudou a me manter motivado e competitivo.

Helio é recordista das 500 Milhas de Indianápolis, com quatro vitórias. Agora vai em busca da quinta!
Você venceu as 500 Milhas de Indianápolis quatro vezes e se tornou um dos quatro pilotos recordistas a manter esse número de vitórias.

Helio Castroneves – Sim, somente quatro pilotos no planeta, há mais de 100 anos, venceram essa prova quatro vezes. E nós colocamos não só o meu nome, mas o nome do Brasil estampado em um lugar histórico. Qualquer pessoa que vier a Indianápolis pode ter orgulho de ser brasileiro porque o Brasil está lá.

O que podemos esperar para as 500 Milhas deste ano?

Helio Castroneves – Todo ano muda alguma coisa. Neste, era para mudar o regulamento em certas situações, como acontece na F1, onde o pessoal acaba alterando de um ano para outro. Mas o legal é que não mudou nada. Então, se nada der certo de desenvolvimento, basta colocar o que eu tive no ano passado, que já estará muito bom. Mas eu vejo que podemos arriscar mais para poder aprimorar o carro. A gente achou um acerto ideal e muitos competidores vão olhar esse lado e analisar porque o meu carro ganhou. E irão seguir o mesmo caminho. É muito importante para a equipe Meyer Shank Racing, que eu corro hoje, que eles repartam informações com a Andretti Autosport. Se fosse uma equipe sozinha, ela teria que desenvolver componentes sem ajuda e talvez isso demorasse um pouco mais. Certeza que os carros da Andretti irão para o lado que fomos no ano passado, deixando este ano bem mais competitivo para mim e a minha equipe. Mas também temos um caminho para explorar, para melhorar o carro. Lembro que na corrida estávamos uma milha ou uma milha e meia mais lentos que o pessoal da Ganassi. Ou seja, tem caminho para desenvolvermos. A minha expectativa é muito grande, de estar brigando novamente pela vitória, que foi o que fizemos no ano passado. Devemos melhorar o pitstop, por exemplo. No ano passado até foi muito bom, mas tivemos poucas bandeiras amarelas. E se esse ano tiver mais bandeiras amarelas? Precisamos estar preparados para esse tipo de situação. Ninguém acreditava o que fizemos no ano passado. Então, imagine com essa força o que podemos conquistar.

Helio Castroneves
Helio Castroneves celebra quarta vitória em Indianápolis. (Foto:IndyCar)
Como foi a decisão de sair dos campeonatos europeus, como a Fórmula 3 britânica, e se dedicar ao automobilismo nos EUA?

Helio Castroneves – Lembro de 1995, que foi um ano que eu corri na Paul Stewart Racing. A minha intenção era me manter na Europa e seguir o caminho da Fórmula 3000 e depois ir para a Fórmula 1. Só que a Philip Morris, um dos meus patrocinadores, estava lançando o Marlboro Brazilian Team, com vários pilotos como André Ribeiro, Gil de Ferran, Christian Fittipaldi, Emerson Fittipaldi… eles falaram que haveria um teste nos Estados Unidos na Indy Ligth. Eu não tinha nem ideia do que era isso, na época. Aí vi que era um antigo Fórmula 3000. Então eu quis testar, porque eu queria ir para essa categoria mesmo. Quando eu fiz o teste em Phoenix, Arizona, foi muito bom, mas só tinha duas vagas, que acabaram ficando com o Tony Kanaan e o José Luis di Palma. Entretanto, eles gostaram do meu estilo e decidiram fazer um terceiro carro para mim. Foi aí que surgiu o novo caminho. Eu disse para os meus patrocinadores que queria ir para a Europa, mas eles disseram que só iriam me apoiar nos EUA. Então, peguei as minhas malas e fui para os Estados Unidos (risos). Eu tive oportunidade em 2002, quando falei para o Roger (Penske) que eu queria testar um Fórmula 1. E acabei testando em Paul Ricard, fantástico, com tempos incríveis. Lembro até hoje das palmas dos mecânicos quando eu terminei. Mas eu vi que a política era um pouco diferente daquela que estava acostumado. Eles queriam que eu fosse piloto de testes, mas eu não iria deixar uma equipe Penske. Queriam que eu entrasse em uma Minardi, como fez o Alonso, mas eu achei que não era por ali. Senti: o meu caminho para a Fórmula 1 vai terminar e eu vou me manter onde estou.

Não houve nenhum arrependimento de não ter ido para a F1 naquele momento?

Helio Castroneves – Não tive nada. Inclusive quem tomou a vaga foi o Cristiano da Matta. Para mim, estar aqui nos EUA, seguir correndo nas categorias norte-americanas, foi a decisão mais correta. Eu fico muito contente até hoje por não ter ido para a Fórmula 1. O carro foi fantástico, serviu como uma luva. Eu tenho certeza de que se eu tivesse guiado na Fórmula 1 também teria tido muitas alegrias. Mas não era para ser e eu estou feliz aqui.

Você também venceu as 24 Horas de Daytona. Agora falta a Daytona 500 da Nascar. É uma vontade sua correr esta prova, ou até mesmo o campeonato completo da Nascar?

Helio Castroneves – Eu tenho vontade, sim. Por muitos anos eu pedi para o Roger para testar o carro, ver como é, mas ele nunca deixou. Como agora eu não estou na equipe e pelo fato de eu estar guiando outros tipos de carro, por que não? Já falei com muita gente, estou trabalhando, não deu certo este ano, mas eu quero sim correr de Nascar. Não só pelo fato de poder competir com um carro diferente, mas para aprender e melhorar o meu estilo de pilotagem. Eu sei que é completamente diferente, precisa da ajuda de parceiros: não é só o vácuo da frente é o vácuo de trás também, um conceito um pouco diferente. Quem sabe a gente se posiciona em um lugar bom e correto…

HELIO CASTRONEVES, JULIANNE HOUGH – Série Maníacos

O que dá mais trabalho? Fazer um bom acerto em seus carros ou dançar em frente às câmeras, como aconteceu com a Dança dos Famosos?

Helio Castroneves – Eu sabia que seria difícil, então fui participar com uma mentalidade de aprender, de entender e tentar assimilar o que eu poderia usar do automobilismo e interagir com a dança. Eu não esperava que fosse ganhar. Fiz a minha maleta para 15 dias e acabei ficando 14 semanas. Foi uma experiência incrível, com uma audiência impressionante de 20 a 25 milhões de pessoas me assistindo toda semana. Aconteceu um crossover entre o público fã do automobilismo com as pessoas que não tinham ideia do que estava acontecendo nas corridas. Na época ganhamos um milhão de viewers por eu ter vencido o “Dancing with the Stars”.

Como surgiu aquele momento da escalada nos alambrados das arquibancadas, para comemorar com a galera? Os norte-americanos até o apelidaram de Spider-Man.

Helio Castroneves – Eu não tinha intenção de fazer nada. Essa situação foi um erro, digamos assim. Era para eu ir para o victory circle, área designada para os vencedores, mas eu estava tão contente que tinha vencido a corrida e queria chegar lá nos pits e encontrar a equipe. Mas eu acabei parando na linha de chegada e fiquei procurando: cade todo mundo? Quando olhei para a minha esquerda, vi que o povo estava ovacionando, aí eu senti que deveria ir celebrar com eles, já que tinha cometido um erro de rota. Acabei escalando o alambrado, como no futebol, no Brasil. Tudo que é espontâneo, que vem do coração, da emoção, acaba sendo muito bom. Por isso, até hoje estou escalando alambrados.

Helio Castroneves
Castroneves disputa a temporada completa em 2022. (Foto: Indycar)
Esse ano você vai correr a temporada toda da Fórmula Indy. O que teremos de surpresas aí também?

Helio Castroneves – A primeira corrida não foi como a gente esperava. O Simon Pagenaud, meu companheiro de equipe, até se classificou muito bem. Nós já trabalhamos na Penske, uns seis, sete anos juntos. Agora, com ele nessa equipe nova, adicionará mais informações para que a gente possa elevar e ser mais constante em todas as corridas. Mas a equipe ainda está bem no começo, tem que criar um certo momento. Eles têm carros esportivos e este ano foi muito bom porque já começou vencendo as 24 Horas de Daytona. A minha mentalidade é a de que vamos conseguir muitas alegrias este ano, ainda mais em Indianápolis. Mas teremos também os lados negativos. É natural até que a gente encontre aquele lado certeiro. No ano passado, a equipe só tinha 30 funcionários. Agora, já dobrou porque tem dois carros o tempo todo. Tem um lado de progressão e isso vai acontecer durante 2022. A minha expectativa são altos e baixos, mas também conseguir vitórias com a equipe.

Conte quais foram os três momentos mais marcantes da sua carreira.

Helio Castroneves – Foram mais de 20 anos de carreira. Mas destaco as primeiras vitórias, que foram muito importantes. Desde a primeira no kart, em 1989. Comecei em 1987 e venci dois anos depois. Aí foi onde despertou a minha paixão pelo automobilismo. Descobri que era o que eu queria ser! Outro momento foi a primeira vitória na Fórmula Indy, muito legal, pelo fato de finalmente eu conquistar aquele sonho tão esperado. E a quarta vitória em Indianápolis foi muito especial, por eu não estar em uma equipe Penske, com uma superorganização, por eu realizar praticamente sozinho com uma equipe nova. Foi muito gratificante e só me motivou ainda mais para seguir o que eu estou fazendo.

Você gostaria de deixar uma mensagem para os nossos leitores, tão apaixonados pelo automobilismo?

Helio Castroneves – Hoje com o social media, as informações são muito maiores e naturalmente as críticas também. As pessoas esquecem de sentir no seu coração, de olhar dentro de você mesmo, e seguir adiante. No meu caso, vejo comentários do tipo que já tenho 46 anos, já estou velho. Imagine se eu fosse escutar tudo isso! O negócio é se dedicar, trabalhar, ter paixão pelo que faz, um dos fatores mais importantes para mim, porque os resultados vão aparecer. Cada piloto tem o seu estilo: um chega mais rápido, o outro chega depois, mas o importante é acreditar em você, acreditar que vai conquistar. Pode ser em qualquer tipo de profissão, não só no automobilismo. Acredite no seu potencial e se você sonha grande, ele será realizado.

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